Quinta-feira santa…

2 04 2026

A última ceia

[também conhecida como Santa Ceia

Deiric Bouts (Flandres, 120-1475)

óleo sobre madeira, 180 x 150 cm

Painel central do tríptico da Igreja de São Pedro em Leuven, Bélgica

 

A última ceia de Deiric Bouts mostra Cristo e seus discípulos em um salão típico do século XV em Flandres (atual Bélgica). 

Jesus Cristo, no papel de sacerdote, abençoa o pão e olha diretamente para fora da sala, para o espectador (nós).  Com isso ele inclui quem observa o painel na cena da Eucaristia. É o divino na vida cotidiana.  Sua mão direita elevada em bênção: três dedos levantados simbolizando a Santíssima Trindade e dois dedos dobrados representando sua natureza dupla: humana e divina.

Diferente de outros retratos da Última Ceia, Bouts inclui também, além do observador, o homem comum, contemporâneo, habitante do século XV, nesse momento sagrado. Mais um reforço de que o divino acontece em meio ao dia a dia. A cena é colocada na sala de jantar de uma família belga, abastada, do século XV. Vemos através de janelas góticas a praça do mercado da cidade. Há móveis contemporâneos, de madeira, uma lareira e chão de azulejos coloridos que ajudam na projeção da perspectiva.  Há quatro pessoas, em roupas contemporâneas do espectador que aparecem na cena sagrada: são membros da Irmandade do Santíssimo Sacramento, instituição que encomendou a obra. Dois deles aparecem numa janela de serviço para outro cômodo. No fundo, à direita, há um jarro de metal (aquamanile) e uma bacia em um nicho (lavabo), simbolizando a limpeza ritualística necessária antes da comunhão

Jesus Cristo está rodeado por seus apóstolos. O lustre no centro da sala é típico da era mas também é possível que seja uma referência, um aceno, uma homenagem ao grande pintor belga van Eyck.  Não há velas acesas nesse lustre, assim como a lareira está apagada. Judas está sentado de costas para o espectador e tem uma das mãos (a esquerda) escondida às costas.  Note que ninguém está de sandálias, ou qualquer tipo de sapato, porque a cena retratada acontece imediatamente após Cristo ter lavado os pés dos apóstolos. 

Algumas das diferenças entre a arte do norte da Europa e a do sul, (Bélgica x Itália, nesse caso) na ênfase dada à A última ceia. Aqui o pintor se encarrega, provavelmente seguindo as orientações da irmandade que encomendou o painel, de enfatizar a Eucaristia.  A cena é solene. Estática.  Ritual. Não prevemos o imenso choque emocional da traição a seguir.  Já na Europa meridional o tema em geral dá ênfase à traição. Ecoa a frase “Um de vós me trairá”. O foco é emocional. Há mais drama. 

 

 


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